terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Da série: Babaquices.



Na quinta série eu mudei para uma escola de bairro onde os alunos de onze anos estavam perdendo a virgindade, enquanto eu alimentava aquela esperancinha na minha cabeça - debilóide demais para aquele mundo novo de mini putas - de encontrar uma carta de Hogwarts enroscada nas grades do portão de casa.
Todo mundo falava o tempo todo sobre ficar: "meu amigo quer ficar com você" "a Paulinha ficou com o Rafa atrás da quadra ontem" "eu fiquei com a minha prima Ju sábado, enquanto ela tomava banho em casa". E que diabo era essa coisa de ficar? Será que é andar de mão dada? Passear pelo quarteirão dando risadinhas de piadas bobas e sentir o rosto ficar vermelho por qualquer olho no olho? Será que é um selinho, beijo na trave? Fui criada pela minha vó e a TV Cultura, e logo cedo dava pra perceber essa minha queda idiota por romance.
Foi aí que apareceu o primeiro Felipe na minha vida. Ele estava na sexta série e pediu para ficar comigo e eu, como toda leonina com o ego gigante, fiquei me achando a gata do pedaço porque um cara mais velho, ele tinha 12 e eu 11, estava afim de mim. Coisa gostosa essa de ser criança e achar que o menino é o amor da sua vida só porque ele está um ano acima na escola, depois a gente cresce e fica com essa obssessão maluca por alguém que preste, seja bonito, tenha um bom emprego, seja bom na cama. E, é claro, esteja disposto a passar o resto da vida com a gente: só um tempinho a mais do que os vinte minutos de recreio.
Foi na aula de matemática que eu descobri que ficar era dar beijo de língua. Eu fiquei desesperada e até cogitei a ideia de fingir um vômito só para ir para casa mais cedo e escapar do beijo fatal. As meninas mais experientes, que, aliás, são as mesmas que já têm um ou dois filhos hoje em dia, tentaram me ensinar a beijar usando a minha própria mão. Não que eu tenha aprendido. E assim foi assim meu primeiro beijo: uma troca de baba grossa de bala de iogurte na padaria da esquina, com a escola toda olhando e eu com cara de nojo.
Depois disso vieram outros Felipes - sempre fodendo com a minha cara - e outras babas grossas, outras línguas se esfregando na minha, uma vez rolou até um basílisco e, ainda pior que aquela língua me fazendo engasgar, línguas inexistentes. Tem coisa mais chata do que você beijar o cara esperando ele te dar um carinho na boca com a língua quente e nada? Você vai até a garganta dele procurar a porcaria da língua e cadê? Sumiu. O gato comeu. Parece que você tá beijando o buraco negro.
Beijo bom é aquele beijo que é só beijo. Não é beijo e você pensando na roupa que vai usar na baladinha toooooop de amanhã, no trabalho do professor Paulo, naquela vadia que tá namorando seu ex. Beijo bom é aquele beijo que você tem vontade de arrancar fora a boca da pessoa e costurar no seu travesseiro, pra você dormir beijando e acordar beijando. Beijo MUITO bom, é o beijo que dá vontade de levar a pessoa junto pra cama. Mas o melhor beijo ainda é aquele beijo que era pra ser e não foi. Ou não era pra ser e quase foi. O beijo antes do beijo. O beijo que a gente dá com os olhos na boca da outra pessoa, já imaginando o gosto, sentindo a maciez dos lábios, até que algum ser desagradável interrompa e fica na cabeça o beijo que a gente deu na expectativa.
O cara pode ser lindo do tipo deus grego, gostosíssimo, bundudíssimo, loiro, moreno, alto, olhos verdes, rico, fofo, carinhoso e te fazer um CD com músicas para TPM e levar cupcakes com coraçõezinhos. Pode até pegar na sua cintura daquele jeito que faz alguma coisa lá embaixo acordar pedindo comida (ou para ser comida), mas se o príncipe não beijar bem, ele vira um sapo. E um sapo sem língua não come mosca alguma.

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