terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Amores platônicos never die.

Perks of Being a Wallflower























Eu estava sentada de indiozinho à mesa de vidro, minha perna suada grudando no plástico da cadeira estofada. Nojo de mim. Nojo desse suor. Não me dou bem com o calor, adoro o verão. Adoro corpos quentes. Adoro. O celular toca e a noite parece que vai ser boa. Minha melhor amiga,  guru nas horas vagas - e nas horas roubadas durante o expediente também, me diz que não vai prestar. Não vai. Por quê, eu pergunto. Não sei, não vai. Eu fico ansiosa e começo a suar no meio dos peitos inexistentes. Quando a amiga-guru profetiza, acontece.

O celular toca. Pareço uma criança brincando de esconde-esconde ao abrir a porta. A porta que o tal do destino coloca na nossa cara, só para mostrar que todas as outras portas eram só janelas que não levavam a lugar algum. Ou assim eu imagno do alto desse meu castelo-de-emoção sem alicerce, chão ou telhado. E. Você entra por essa porta.

Eu ouço a cerveja descendo pela minha garganta e finjo prestar atenção em uma conversa sobre alguma coisa que eu não me lembro, com pessoas que eu não me lembro. Mas lembro bem do meu corpo parecendo grande mais, estabanado demais, porque eu preciso pegar outra cerveja. Eu preciso passar por você. Eu preciso me lembrar que eu ainda estou aqui e não na minha cama te enchendo de beijo.  E a conversa sobre-sei-lá-o-que continua e eu tento, desesperadamente, gravar cada pinta, cicatriz de gilette, marca de espinha, cada polegada e cada sorriso, leve movimento da sobrancelha, a boca sarcástica. Olho para você como se eu fosse Michelangelo esculpindo seu rosto em mármore e cada fio de cabelo faz parte dessa obra-de-arte que é te querer.

O fio de cabelo que tem a pretensão de ser um cacho, acabando por ser só uma onda no meio de tantas ondas nessa cabeça que é o fundo do oceano Atlântico, o Triângulo das Bermudas. A piscina onde eu queria me afogar. Sentando ao meu lado e fazendo todo o ar do mundo entrar pelas minhas vias respiratórias, como se eu nunca tivesse respirado antes. Como se eu nunca tivesse sentido esse arrepio interno que é o tesão inocente de querer estar perto. De querer olhar. De querer ouvir. De querer que você toque meu braço inúmeras vezes durante a história sobre sábado passado. Ou mês passado. Ou tanto faz. Desde que você toque meu braço. E eu me pego rindo e pensando "Deus, tô parecendo uma mocinha de doze anos! Não lavo esse braço nunca mais na vida!" Até que você me toque de novo. Me pegue, talvez. E me tenha nos seus olhos por um tempo maior que aqueles encontros de olhares envergonhados em meio à fumaça e às risadas.

A amiga-guru me olha do outro lado daquele monte de gente-coadjuvante e me sorri aquele sorriso de "eu tô sempre certa". E você tá. Tá mesmo. Então me diz agora que ele não tirou os olhos de mim só porque eu coloquei um sutiã listrado com uma blusa branca. Me diz que essa perna encostando na minha é o desejo insconsciente e que ele não estava cochichando com o amigo dele sobre o meu blog bobo. Mas logo esqueço da amiga-guru; ele está contando outra história sobre outro dia e são as mesmas mãos no meu braço, na minha perna e eu mostrando os dentes à toa, querendo sentar ao seu lado até não conseguir mais levantar da cama.

Essa noite eu fui dormir sorrindo e sentindo tudo o que o Lexapro me reprimiu. Passei o dia toda suspirandinho pelas paredes de casa, esquentando o pé no sol que entra pela janela, sorrindo para o espelho e dizendo para a minha cachorra como essa vida é boa. Parei para observar a chuva de verão caindo gota-a-gota na minha mão e indo embora, pensando Deus, que bom que tudo passa. Menos o amor platônico.

8 comentários:

  1. Eu estou sempre certa!

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    1. mas as vezes você precisa bater mais na madeira quando eu mandar.. hahaha

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  2. Como sempre tudo muito bom, dona Camila. ;-­)

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  3. AMEI ! De amores platônicos eu entendo :)

    Adoro parecer uma mocinha de doze anos !

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    1. acho que o amor platônico é o amor mais gostosinho que existe hahaha

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  4. Acho que todas gostam desses momentos em que somos mocinhas de doze anos, dá uma sensação de vida dentro da gente!

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    1. exatamente isso, Vanessa: sensação de vida dentro da gente!

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