segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Siliconando 2012



Mesmo com tantas nuvens no céu o Sol insistia em não se intimidar. O calor estava escaldante e eu ficava imaginando como seria bom estar num comercial de pasta de dente com um cara gatissímo soprando um bafo de gelo na minha cara, prestes a me beijar. Que coisa mais babaca para se ficar imaginando na beira do mar. Mas sei lá, to sempre imaginando coisas babacas de qualquer maneira.
Abri um Fandangos sei-la-de-que-sabor-já-que-todos-têm-o-mesmo-gosto e fiquei assistindo a mãe da minha amiga intercalar momentos de riso histéricos com choros repentinos. Praia, sol, férias, cerveja trincando, essas coisas que acontecem com todo mundo. Foi aí que passou aquela menina. Uma dessas meninas bonitinhas, sabe? Magrinha, bem arrumada, o cabelo loiro liso preso num coque mal feito. E silicone. Ela tinha silicone. Os peitos mais duros que eu já vi na vida, mal se mexiam quando ela vinha gingando do mar. Como eu quis aqueles peitos, mesmo eles parecendo mais um saco de cimento. Como eu quero aqueles peitos. Pronto. Estava feita minha primeira resolução de ano novo: pôr silicone. Eu queria ligar para minha mãe naquela hora mesmo e dizer "mãe, tomei uma decisão na minha vida: vou pôr silicone"
Acho bacana essa coisa toda de beleza natural etc etc etc acontece que esse ano eu tô determinadissíma a fazer a coisa mais óbvia e esquecida de todas: isso mesmo, nenéns, eu vou gostar de mim. Vou mesmo e ponto final. As californianas eu fiz no apartamento da praia, minha amiga sendo a cabeleireira e os produtos nada mais que água oxigenada de R$1,50 e o pó descolorante mais barato da loja de cosméticos. O piercing do tragus cicatrizado e a argola no nariz. Eu gosto de ser assim e gostarei mais ainda quando eu tiver dois peitões duros preenchendo um sutiã 44.
Acabei com o saco de salgadinho e fiquei com aqueles dedos lambuzados de pó amarelo e areia, uma crosta nojenta embaixo das unhas compridas que eu sempre quis ter e consegui agora que eu enxergo sem lentes de contato. Ser a gente é ser o que a gente gosta. Lembro da matrícula na faculdade de fotografia e penso que eu tô no caminho certo para ser o que eu sou, seja lá o que for, o que eu quero ser quando for gente grande é ser eu na minha totalidade e imensidão e loucura e bestialidade. É só isso: descobrir o que eu gosto e go for it.
Sei lá, sabe, é o tipo de resolução  mais pateta que alguém pode ter, essa coisa de ser você mesmo e blablabla, a Pitty já fez questão de banalizar totalmente a questão com aquela música pegajosa que serviu de trilha sonora para as idiotisses da minha adolescência. Mas o fato é que é tão mais gostoso viver quando eu tô gostando de mim e é tão mais fácil gostar de mim quando eu tô só sendo eu e fazendo o que eu sei e o que eu gosto, tão mais fácil do que ficar tentando extirpar meus defeitos e me odiando porque eles são uns filhos da puta que não me largam e não me deixam ser para agradar o resto do mundo. E se vocês querem saber, pôr silicone é pouco! Eu quero ir para Àfrica cuidar de filhotes de leão e depois viajar para New York gastar todo meu dinheiro conquistado sem suor algum graças ao ar condicionado infalível da IBM. Quero ter quadros numa parede inteira do meu quarto, quero réplicas de Goya à tirinhas da Turma da Mônica, passando por aqueles pôsters-clichês do Big Ben e imagens de Iemanjá ao lado de mini-pirâmides egípcias na minha prateleira cheia de livros que talvez eu nunca leia, mas estão ali caso um dia eu tenha crises de insônia de novo. Eu quero ir para Ibiza ter uma temporada de puta bêbada siliconada e depois quero ir ao Tibete conhecer a vida de Dalai Lama. Quero sair vestida feito uma periguetona, o vestido curto e saltão e no outro dia usar uma saia longa e nada de maquiagem, o cabelo sem pentear, tipo uma hiponga dessas moderninhas. Quero tudo isso mesmo que uma coisa não tenha porra nenhuma a ver com a outra, porque isso sou eu e eu não tenho nada a ver com porra nenhuma nesse mundo.
Vocês deveriam tentar, sério. Que se danem as listas de resoluções de ano novo: ninguém precisa disso para ter peitos grandes e duros ou para comprar uma bolsa da Louis Vitton ou para comer mais verdura se é o que se quer. Ninguém precisa decidir o que fazer durante o ano, pelo amor de Deus e da Virgem Maria. Esse ano eu só farei o que eu faria se eu fosse eu. Oh. E eu sou.

4 comentários:

  1. Repetindo aquele velho, mofado, enfadonho, empoeirado e clássico jargão, cada um sabe a delícia e a dor de ser o que é, não é mesmo?

    Adorei o fluxo de suas palavras. Visitarei seu espaço mais vezes. Sigo-a, agora, no Twitter também.

    Abraço.

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  2. Caah, ADOREI. saudade de você...

    e viva ao silicooone, UIAEUAEUAUIIUAEUIAE

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  3. Gostar de nós mesmo é igual gostar de qualquer outra pessoa, primeiro agente aceita, depois conhece melhor a partir daí nos identificamos.... caso contrário nunca nos daremos o devido valor( com silicone ou sem)...Nisso até puta bêbada siliconada e o Dalai Lama concordam.

    Tudo de bom pra vc =)

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  4. Camilinha, vc é a louca mais sensata que eu já vi.!

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