terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Puta,eu?


Eu sou uma burra. Uma puta duma burra. Queria mesmo era ser puta. Mas quem é que é puta hoje em dia? Há tanta carência no mundo que tem puta dando por um afago e um abraço. E alguém que a olhe nos olhos e pareça mesmo estar ali. Ou finja estar ali e não com a cabeça enfiada dentro do próprio umbigo pensando na gostosa da vizinha só de calcinha e sutiã ou na conta bancária em vermelho ou naquela nova versão com câmera 8.0mp daquele smartphone super badalado. Alguém que esteja ali como se Ali fosse o melhor lugar do mundo.
Como 99,9% das mulheres, eu sou um poço de carência e insegurança. Dra. Ângela falou que eu tenho a maior necessidade de me aprofundar. Me aprofundar nos meus relacionamentos. Me aprofundar nas pessoas. Me afundar em alguém que não seja eu e esse oceano de desinteresse. Me afundar como se afundando eu fosse descobrir o que é a vida e poder dizer pra mim mesma na hora de dormir "você tá se fodendo, mas vale a pena".
Vai ver eu sou uma dessas putas baratas. Puta barata porque puta de luxo quer saber é das verdinhas e não dos olhos verdes nos olhos verdes. Puta de luxo não fica mendigando carinho, atenção e um ombro quente pra descansar da vida. Sou uma puta barata vestindo uma saia curtíssima de normalidade e rebolando minha loucura na esquina, exigindo aos berros nada sensuais que alguém pare e me leve pra casa. Me leve pra algum lugar que se pareça com a minha casa e me encha de beijinhos e carinhos e todas essas merdinhas. Essas ruas de mim são ruas tão frias. E me matam de tédio.
Mas hoje o céu tá lindo, o Sol tá brilhando. E eu tô usando um sobretudo por cima dessa carne nua de pudor.
É que eu não tô afim, sabe? Não tô afim de vestir aquele sapinho simpático de príncipe pra brincar de boneca. Aquele bonecão lindo e fofo na minha estante prontinho pra satisfazer toda a minha sede por afeto. Não tô afim de fingir que eu acredito mesmo que a gente vai casar na praia e que ele não vai sair correndo naquele pangaré branco quando entender que eu não tenho jeito: tô mesmo afogada nesse poço de qualquer coisa que eu sou e eu sou é chata pra caramba. Não tô afim.
Não tô afim de me maquiar e esconder todas essas sardas e colocar um salto pra ficar alguns centímetros mais alta e a bunda empinada. Não tô afim de colocar o sutiã de bojo e exibir por aí uma mentira pra ver se eu consigo conquistar outra mentira. Porque é sempre mentira. Quando eu digo que eu quero ficar, é mentira. Eu vou embora na primeira chance de ser um pouquinho mais feliz. Eu fico por aí gritando para o mundo todo como eu sou diferente e como eu me sacrifico por todo mundo, quando eu sou só mais uma babaca egoísta que quer mais é que o resto do mundo se foda, se todos se foderem não me fizer chorar de dor à noite toda.
Não to afim de amor. Me desculpe por não fingir que eu me importo com as músicas que você gosta e os filmes que você assiste, por não mentir que eu nunca me senti assim com outro cara e que seu sorriso é o mais lindo que eu já vi. Me desculpe por não estar naquela esquina, pronta pra ser sua puta barata. Eu poderia aprender a te amar e a te querer e poderia fazer de você o novo amor da minha vida, e você só precisaria estar aqui. Ou estar aí, do outro lado da linha, mudo, desinteressado, apenas me deixando te amar.  Mas eu não to afim. Me desculpe por ser uma filha da puta. De novo.

4 comentários:

  1. Me sinto estonteado, em frente ao monitor, com as mãos paralisadas durante alguns eternos minutos, sem saber oque dizer.

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  2. Adorei o texto. Adorei o blog. Estou seguindo!!

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