terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pseudo-Ofélia

Ofelia, from the play "Hamlet el príncipe de Dinamarclown", directed by Fausto Ramírez. 

Tem amor aqui.
Tem amor no lençol verde que eu não estiquei sobre a cama. Tem amor na pilha de roupa equilibrada em cima do sofá. Tem amor quando eu acordo, mesmo que eu acorde manchada pelo rímel do outro dia. E na hora de dormir dá para sentir o cheiro do amor no meu travesseiro. Tem amor até quando eu tô escovando os dentes ou tirando a cutícula. Tem amor no leite que eu bato com Toddy. Dá mesmo para ouvir o amor caindo na chuva e batendo no chão de cimento lá fora ou na chuva tentando infiltrar no meu teto até se transformar numa goteira. Goteira de puro amor, alagando meu quarto inteiro, até eu me afogar. Todo o amor que morava dentro de mim, e agora não tem para onde ir.
Não sei se a TPM dessa vez veio em forma de carência e toda a minha irritação me abandonou para dar lugar a esse sentimento triste - e mil vezes mais nobre - que é o amor em volta mas não dentro. Não sei se tudo se resume a essa vontade de provar para mim mesma que dessa vez meu coração não empedrou.
Lavo o rosto oleoso e tiro a ramela como se fosse um ritual, uma cerimônia. Encaro fundo os olhos mais ou menos verdes que eu vejo no espelho e de repente eu não sou mais eu. Eu sou Ofélia enlouquecida prestes a cair no Rio Avon, coberta de flores e um amor que poderia ter sido meu colete salva-vidas. Sou a Ofélia com a cara amassada.
Meu pão com manteiga tem gosto de amor e quando eu me visto, visto amor nas calças e no sutiã. Saio de casa para pegar o ônibus e vou caminhando com os ombros meio curvados, os braços deixados ali, o rosto pura concentração, como que procurando algo no horizonte além do horizonte das pessoas que não amam. Eu vou respirando como se cada golfada de ar exigisse de mim extrema determinação. As senhoras que abrem o mercado da esquina devem mesmo pensar "que menina mais corajosa", ao me ver passar por lá com essa postura digna de quem tem toneladas de amor inútil no lombo.
Chego a pensar que tem um quê de divino nessa história de não ter onde descarregar tanto querer. Acho poesia pura cair do penhasco e deixar o rio me levar, porque não tem nada mais bonito que morrer de amor. É só que morrer de amor é pra quem não tem os hormônios tão à flor da pele, Ofélia querida. Morrer de amor é para quem já morreu para si mesmo. Eu tô tão viva.
Ofélia que me perdoe, mas o que eu queria mesmo, meu menino, era te entupir com todo esse meu amor pedinte e te enfiar embaixo do lençol verde para esquentar minha cama, dormir cheirando seu cabelo, que deve ser mais ou menos o cheiro que o amor tem - esse cheiro de de shampoo de homem e suor. E ter esse braço quente do meu lado quando a chuva lá fora deixa o mundo mais escuro, os pêlos arrepiados pelo frio. Ou por qualquer outra coisa. Quero o amor nos seus olhos e não numa colherada de Toddy e suas vacas iraaadas. Que seja o seu suor a alagar meu quarto. Que seja você aqui. Por fora. Por dentro. Onde couber.

2 comentários:

  1. você escreve muito bem, mesmo.

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    1. obrigada! gosto de saber que as pessoas gostam do que eu escrevo :)))

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