sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O cheiro do pó.

Amanheceu sol depois de dois dias de chuva.
Acordei 7:55 amaldiçoando o mundo inteiro por quê inferno eu tinha que acordar tão cedo se eu tô de férias? Ah, o neurologista, a enxaqueca, eu dormindo 12 horas seguidas por que a dor filha da puta do lado esquerdo da minha cabeça simplesmente me aniquila. Ok. Levantar. Ahhhh mas a cama tá tãaaaao gostosinha e já deve fazer, sei lá, uns 4 dias que a minha cabeça não dói. Ahhhh, me deixa dormir só mais um pouquinho, tipo, até uma hora da tarde. Vem na minha cabeça a voz da minha mãe me lembrando que eu tenho oftalmologista às 13:30 e que era pra eu ter ido a um mês atrás e que eu não posso ser tão irresponsável assim e blablabla papo de mãe blablabla e logo em seguida ela dizendo "Você tá parecendo uma velha, Camila, gastando todo seu dinheiro em médico e remédios". Tá, mãe. Tô levantando.
E esse cheiro?
Chego na clínica e tem aquela sala de espera verde-desbotado e uma televisão passando Ana Maria Braga e montes de velhos que já deviam estar acordados há umas 4 horas. É, mãe, você tem razão. Eu tô mesmo parecendo uma velha. Mas acho que eu pareço uma velha desde que eu tinha 7 anos de idade e preferia ouvir conversas de adultos a ficar correndo feito uma retardada atrás de um bando de crianças retardadas. Acho mesmo que eu nasci com 40 anos e a única coisa que eu sinto falta da minha infância é fazer nada o dia todo. A sala de espera.  Fico imaginando como deveria ser mil vezes mais entediante ir ao médico antes do 3G.
"Camila Lourenço de Souza, sala 4". Tá. Mas e esse cheiro?
- Como está sua dor de cabeça, passou?
- Não.
- Diminuiu?
- Não.
- Não melhorou nadinha?
- Não.
- Nem com o Cefalium?
- Não.
- E o Flanax, tá tomando?
- Não.
- Ah, que cara de pau!

Beleza. Até o neurocirurgião rindo da minha cara. E ainda era dez horas da manhã.
Pego a van-não-mais-ilegal lotada até a rodoviária de Campinas, minha enxaqueca querendo vir em forma de protesto a todos aqueles buracos e à minha barriga vazia. Não queridinha, não, não doa, por favor, espere a gente chegar em casa. Tem algum babaca atrás de mim ouvindo rádio, uma dessas rádios que você pensa "aqui, Coréia do Norte, mire todas suas armas nucleares aqui!!!". Prefiro morrer queimada a continuar ouvindo a tal da Marisléia do Jardim-sei-lá-o-quê oferencendo Adoro Amar Você do Daniel pra toda família, vizinhos e, em especial,  ao amor da vida dela. A vozinha chata da minha cabeça me lembra sutilmente "você tem um Ipod de 8gb lotado com a discografia dos Smiths e Beatles e Suck it and see e ele está jogado em cima da sua estante, sem bateria há mais um mês, cheio de pó. Se fode, otária!". E alguém pode, por favor, me explica essa porcaria desse cheiro?
Mais uma sala de espera. Dessa vez a cor é amarelo-desbotado. Tem um ventilador no teto e duas correntinhas penduradas nele, se movendo conforme as pás vão girando, girando, girando. Ali, ao acaso, numa sala de espera em edifício mais velho que eu poderia imaginar, duas correntinhas de prata balançam sem parar. E quem disse que a porra do universo faz algum sentido? Quem foi que disse e me fez acreditar? Quem foi o aprendiz de Hitler que me fez crer cegamente que esse cheiro de passado que eu tô sentindo o dia todo tem algo a ver com os astros agindo a meu favor, que esse cheiro não é só o mesmo acaso que faz essas duas correntinhas balançarem nesse prédio velho?
Outra sala de espera. Essa já é mais elegante, tem uma porta gigante na entrada que me faz pensar numa dessas portas majestosas em edifícios importantes, castelos, sei lá.
Sentei no divã e eu queria mesmo era perguntar que merda meu cérebro estava querendo comigo, me fazendo sentir esse cheiro de passado, que não é cheiro dele, é cheiro nosso, o dia todo? Queria contar como eu passava a maior parte do meu dia em pura euforia por estar sendo o que eu gosto e por ter me livrado dessa angústia que era tentar ser alguma coisa. Queria contar como essa euforia vira fumaça quando me vem uma sensação ínfima de toque, de beijo, de querer, de você. Esse cheiro tá me enlouquecendo o dia todo, minha cabeça vai explodir a qualquer minuto e eu tô muito feliz em saber que eu posso me dar bem sendo uma editora. Mas cara, agora eu quero esfregar meu corpo com vinagre até esse cheiro sair. Eu quero dormir.
Antes de acordar, no meu sonho alguém dizia que quando o dia amanhece bonito assim é sempre um bom sinal.

3 comentários:

  1. Uau! Você me fez viajar intensamente nessa história. Gostei bastante, mesmo. (:

    Beijos!

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  2. Ameeeei! (:
    Estou seguindo seu blog. se poder , dá uma olhada no meu. Beijos,
    http://depoisdeumdianormal.blogspot.com/

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