quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Minha bolha Protex


Você pode sentar ao meu lado no ônibus e me contar sua vida inteira, falar do seu filho que já trabalhou na IBM, da sua amiga que fez um mochilão pela Europa, das mil transas que você já teve e pode descrever cada golpe de karatê, jiu jitsu, de todas as brigas em que você já se meteu por aquela menina vaca que jurava te amar e no fim te trocou por um bombadinho idiota qualquer. Se você quiser, eu até aguento seu blablabla a bíblia é uma farsa, Deus não existe, foda-se o cristianismo e o papa no seu trono de ouro enquanto milhões passam fome blabla. Ou então, que lixo é o tal do Michel Teló e essas merdas de música e essa merda de carnaval e que Brasil de merda. Vou aturar numa boa essa sua lambeção de ovo dos países de primeiro mundo, ainda que a minha vontade seja mandar você calar a porra da sua boca. Meu ouvido é um banheiro público de rodoviária e eu simplesmente não me incomodo em ouvir quarenta minutos de asneira.
Só não se esparrame na porcaria do braço que divide nosso banco.
Acordei cedo, pisei em cocô de cachorro e passei o dia enfurnada num barracão que pretende ser um escritório, forrado com um carpete cheio de ácaro e a luz fluorescente apagando todo o meu bronze de verão. Não tem nada de poético em instalar cinquenta ordens naquele sistema de tela preta e letras verde-limão ou em passar oito horas com a bunda mole numa cadeira desconfortável. Nada de mágica no meu dia de puta e essa azeda encosta o braço dela no meu.
Sou nojenta para caralho. É isso. Eu não gosto que estranhos toquem em mim. Tenho pavor desses gatos-da-balada-vem-cá-princesa que chegam pegando no meu braço, no meu cabelo, na minha cintura, esfregando em mim aquela mão peluda de punheteiro. P-a-v-o-r. Demoro séculos para liberar um abraço e acho que essa coisa de toque é muito pessoal. Tenho uma bolha enorme me protegendo dos germes e dos babacas do mundo e a minha vontade é de vomitar sempre que alguém força a entrada no meu círculo Celta de proteção. Tenho vontade de vomitar quando eu pego o ônibus lotado e tem alguém tentando esfregar a piroca na minha bunda.Nunca sei para onde virar o rosto na hora dos três beijinhos. Eu tenho essa mania de ficar reparando como é que as pessoas me tocam e posso me apaixonar por um dedo roçando nas costas da minha mão - cafuné me ganha pra sempre.
Eu só queria colocar meus fones no ouvido e ficar olhando o céu pela janela, ouvindo Apanhador Só e pensando na morte da bezerra e seus três filhinhos, mas de repente não tem mais ônibus, nem estrada, nem Ipod: meu mundo é só esse cotovelo invadindo meu espaço. Essa porra de cotovelo de rinoceronte invadindo a porra da minha bolha. Me fazendo ficar toda dura e encolhida no outro canto do banco, quase no meio do corredor, as pessoas esbarrando a mochila, a bunda e outros tantos cotovelos ressecados na minha cara. Preferia o cocô de cachorro.


Um comentário:

  1. Além de tudo isso, queria uma que me protegesse daquele rit zumbido escrachado, que vem do fundo, porque um panaca não sabe como usar o fone de ouvido e faz dele um colar ou um cinto!

    Deveria haver um manual de como se comportar dentro do transporte público.

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