segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sapatilha de cristal

Há um mês inventei de querer uma peep-toe-meia-pata. Estava nessas de querer me sentir mais mulher, mais sexy, mais desejada, mais tudo isso que toda mulher tem vontade - nem que seja uma vontadezinha reprimida e renegada. Ora, às favas toda essa coisa de sou-descolada-inteligente-e-me-garanto-na-esquisitisse. Eu queria era ser gostosa e ponto.
Saí em busca do bendito sapato da gostosísse. Claro que foi uma batalha, quase uma cruzada em busca do cálice sagrado. Eu e meu pé magrelo, sempre escorregando e deixando todos os meus dedos compridos para fora do sapato - e vamos ser sinceras, dedão para fora da sandália, quase esfregando no chão e ficando sujo embaixo, é uma das 7 coisas mais abomináveis e de mau gosto desse mundo.
Depois de um dia inteiro entrando em todas as lojas de sapato do 3o maior shopping da América Latina e de ter acabado com a paciência da minha mãe (a menor paciência da América Latina), encontrei a sandália mais maravilhosa, charmosa, glamurosa, etc-osa, desse meu mundinho. Foi amor à primeira vista! Altissíma, de camurcissíma e, é claro, carissíma. Duzentos-e-sessenta-reias. Por Deus! Mas eu estava apaixonada.
A primeira oportunidade de usá-la se revelou logo no fim de semana seguinte. Coloquei a 8a maravilha do mundo no pé e fiquei desfilando pela casa. Mas ela é tão linda, e tão de camurça, e tão frágil. E se algum bêbado derrubar cerveja barata na minha sandália chiquérrima (e carérrima)? Ah não, tenho que protegê-la dessa vida cheia de perigos.
E eu nunca usei a tal peep-toe-meia-pata-milagrosa. Duas semanas depois eu voltei a tal loja e troquei por uma sapatilha verde bandeira, até que ajeitadinha.
Dizem que a Cinderella é a prova viva que um sapato pode mudar sua vida. Pois bem, essa sapatilha mudou meu dia. Acordei naquele mau-humor típico de segunda-feira, praguejando a via Láctea inteira por ter que acordar tão cedo, por ter que ir trabalhar, por ter um cabelo sem graça, porque a argola no meu nariz tá torta, porque porque porque porque. Velha resmungona. Calcei a sapatilha e levantei. Oh boy. Será? Dei um passo, dei mais outro e mais outro e mais outro. SIM! Essa é a sapatilha mais fofa, gostosa, deliciosa, feita para os pés dos deuses, de princesas, de sei lá o quê, a sapatilha mais perfeita que já existiu na face da Terra!
Tá. Vocês vão dizer que eu to exagerando. Mas não. Essa sapatilha fez meu dia mais confortável, e a cada passo eu pensava "puta merda, que sapatilha é essa?". Parecia que eu estava andando em nuvens. Eu queria usá-la todos os dias para o resto da minha vida, queria dormir com ela, queria casar com ela, queria ter filhos com ela! E que se foda essa coisa de ser gostosa! Quero mais é ser a estranha de sempre e me achar a descolada com essa sapatilha desengonçada e toda furadinha e verde bandeira, que abraça meu pé e o massageia enquanto eu ando. Quero rodar o mundo com essa sapatilha no meu pé!
Vocês podem pensar "vai ver essa louca tá fazendo qualquer analogia do tipo mais vale uma pessoa que nos faça feliz do que uma pessoa bonita" etc etc etc. Não, queridos, essa sapatilha é mesmo tudo isso e vale cada centavo dos cento-e-noventa-reais-e-noventa-centavos. Só falta mesmo me trazer o príncipe encantado.

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